Tô apenas publicando o escrito, que não é meu.
SOBRE A X MOSTRA DE TEATRO DE SERRA TALHADA
Há alguns dias tento digerir, de forma distanciada, minhas impressões a cerca da Mostra de Teatro de Serra Talhada neste ano de 2010. Achei que conseguiria simplesmente desatar a escrever frenética, fria e jornalisticamente sobre o evento. No entanto, pasmei ao perceber o quanto é difícil falar do que somos ou nos tornamos, do que nos identifica e nos marca como ferro em brasa no couro bovino. Mais difícil é enxergar, sozinho, cicatrizes profundas e antigas, feridas abertas e novas, um prazer masoquista transbordando num gozo vazio.
No ano de 1996, participei de uma das edições da Mostra de Teatro de Serra Talhada através de um grupo mantido para funcionários e dependentes de uma empresa estatal. Éramos uns 10 ou 11 atores e mais 5 ou 6 funcionários da empresa que compunham a comitiva. Para tal, a estatal contratou um ônibus com capacidade para transportar 55 passageiros, sobrando vagas que foram cedidas a grupos teatrais do Recife. Eu contava com 15 anos de idade e adorei a viagem com todas aquelas pessoas juntas se divertindo. Guardo outra lembrança desta mostra de 96: a iluminação era precária, toda feita com “spot-lata” e uma caixa de madeira com interruptores que fazia vez de mesa de luz. Prevendo um superaquecimento das instalações, esticamos os fios para que eles ficassem mais arejados. Depois da montagem técnica do espetáculo fomos ao hotel nos restabelecer para a apresentação propriamente dita. À noite, o auditório da Antiga Escola Cônego Torres lotado de gente, e nós otimistas com a apresentação. Começa o espetáculo e descobrimos que alguém havia encerado o piso de cimento queimado do palco do auditório, o que provocou quedas, baques e estouros de quase todos os atores. E antes que nos acostumássemos a cair, um clarão de fogo correu pelos fios da iluminação em explosões contínuas até estourar numa lâmpada e vir o “black-out”. Alguém, muito bem intencionado e que não entendia nada de iluminação, resolveu enrolar todos os fios na nossa ausência para limpar a passagem, pois aquilo espalhado no chão era muito feio. Pois bem, a energia foi restabelecida e o espetáculo retomou a atividade.
Na noite seguinte, a premiação encheu de vaidade alguns e de ódio outros. Eu não tinha noção, nem opinião sobre aquilo, mas lembro bem dos sentimentos gerados por esta noite de premiação: soberba, inveja, insatisfação. Uma macaqueação do Oscar tão comum nesses eventos pelo Brasil à fora.
O tempo passa... Em 2010 a Mostra de Teatro de Serra Talhada, já na sua 10ª edição, ofereceu aos artistas e colaboradores hotel confortável e boa comida. Uma pessoa da organização do evento à disposição dos grupos para recepcionar e solucionar algum problema ou tirar dúvidas. No entanto, esta ajuda era meramente administrativa ou turística mesmo. A primeira coisa a me chamar atenção quando entramos no auditório da vez foi a iluminação. Apesar de no ato da inscrição e envio do projeto nos ser solicitado plano de luz, havia apenas 8 “spots” dos mais simples e duas luzes de ribalta improvisadas, tudo ligado a uma mesa de luz pequena, mas suficiente para a quantidade e qualidade dos equipamentos. Encontrei todos os fios excedentes enrolados sobre a mesa tal qual 14 anos atrás. Depois do “flash-back” inevitável, contei o ocorrido e orientei um rapaz, totalmente desorientado, que “tomava conta” dos equipamentos. O pobre não tinha o mínimo preparo, não sabia sequer ligar os aparelhos. Não era iluminador, não era sonoplasta, não era eletricista (por que não?), era apenas um rapaz de boa vontade ajudando de bom grado ou recebendo para isto. De qualquer forma, não hesitou em desenrolar os fios conforme eu havia pedido educadamente.
Começamos o espetáculo com a luz que deu para fazer. Estava até bonito diante da precariedade. Os atores empolgados em cena, como de costume, até o momento em que... apagou-se tudo. Sem luz, sem som, só atores no escuro. Correria. Estranhos subiam ao palco para tentar resolver alguma coisa confundindo-se com os atores enquanto a cena continuava e o espetáculo seguia sua narrativa dentro das possibilidades. A única solução possível foi o acendimento das luzes comuns do auditório. O som não voltou, a iluminação cênica não voltou. Quando os atores já estavam acostumados com a escuridão e o público atento à trama: crianças vindas de uma escola pública (o que significava metade da platéia) levantaram e tentaram sair em bando, pois havia chegado a hora do fim da aula na escola e o caminhão estava à espera, ninguém poderia perder o transporte. O diretor do espetáculo, já transtornado com os problemas técnicos, atirou-se na saída e questionou uma professora sobre o ocorrido. A professora constrangida recolocou as crianças nos seus assentos. O espetáculo chegou ao fim sem os efeitos de som e luz fundamentais a expressividade proposta à reflexão necessária.
Depois do espetáculo, a palestra sobre teatro infantil e didática, dada pelo diretor do espetáculo, teve tom de revolta. Inclusive deu-se ênfase a uma frase: “O TEATRO PRECISA DAR-SE AO RESPEITO”. Alguns balançavam a cabeça em solidariedade, outros visivelmente ofendidos, um outro retirou-se, um dos responsáveis pelo evento saiu em defensiva: “Nós não sabíamos que não podíamos ligar tudo numa tomada só. Estava tudo certo. Como nós poderíamos saber?”. Todos tinham a resposta que não lhe foi dada. E atacou novamente: “Infelizmente, nós temos esse problema social que todos ficam horrorizados quando passa no Jornal Nacional: “Os caminhão leva” as crianças para a escola. Quando eles viram a hora, saíram correndo. A gente não podia fazer nada. Como nós poderíamos saber?”. Ficou sem resposta mais uma vez. As pessoas se entreolharam e nada disseram diante do pedido de desculpas feito pela organização da mostra.
Trata-se de dinheiro público, coisas foram orçadas, precisavam estar minimamente direcionadas no sentido de dar, acima de tudo condições ideais de montagem e apresentação aos grupos. Respondo ao amigo da mostra: Realmente vocês não poderiam saber. Não por que são sertanejos, e isto não os desmerecem diante de ninguém da capital ou de qualquer outro lugar. Não poderiam saber, pois não são técnicos, não são iluminadores, nem eletricistas. Mas foram irresponsáveis. Eu não posso receitar um remédio sem ser médico. Um mero apagão poderia ter se tornado num incêndio desastroso. Foram desrespeitosos com o os grupos que ali trabalharam e com a platéia tão carente e ávida por coisas novas, interessantes e educativas em si. E quanto aos alunos, coitados, obrigados a sair correndo para pegar um caminhão, eu só posso dizer uma coisa: Pior do que andar de caminhão para ter acesso à escola é conviver com o descaso a sua formação, como se ir ao teatro fosse qualquer coisa, como se teatro fosse apenas um lugar para esperar a hora passar e entrar num caminhão. E porque não começar o espetáculo mais cedo?
No mais, entendi sutilezas que não enxergava anos atrás. Antes de mais nada, preciso repetir a frase já citada do Júlio Gouvéia: O TEATRO PRECISA DAR-SE AO RESPEITO. O cachê mínimo dado pela mostra obrigou os grupos a buscarem patrocínio para viajar ou optar por viajar e pagar o transporte do próprio bolso. É absurdo ver artistas, pessoas que carregam em si extrema importância na formação social por serem referência de idéias, trocando seu trabalho, seu tempo, suas vidas e ideais por uma viagem, uma dormida em hotel com piscina de criança e boa comida. É chocante e espero que não se ofendam, antes, se envergonhem e reflitam. Alguém pode dizer que não precisaria disso e só foi para dar acesso àquelas pessoas, por filantropia. Nada cola, nada justifica. A própria organização da mostra poderia diminuir o número de espetáculo e garantir melhor técnica e cachê para quem participasse. O mínimo que se possa esperar de qualquer coisa que envolva artistas é respeito, no trato, na técnica e ao público. No entanto, precisamos nos unir e acabar definitivamente com as esmolas, com as compensações, com os restos. O respeito não se pede, nasce de quem tem pelo outro. Senhores, deste Pernambuco, tomemos vergonha na cara e não baixemos as calças por tão pouco. Pouco dinheiro, um pouco de comida diferente, um pouco de cama de hotel com ar-condicionado, um pouco de estrada para distrair. Somos mais do que pensamos. No entanto, estamos muito aquém do que podemos.
Édipo do Coque
Obs.: Édipo do Coque ficou cego depois de problemas familiares, sobrevive de esmolas advindas de atividades artísticas e como, apesar de cego, ouve muito bem, exerce as funções de crítico delator cultural.