Aos 17 anos conversei com minha mãe e pedi autorização pra fazer minha primeira tatuagem.
Peguei o papel.
E foi agulha e tinta.
Minha avó e alguns familiares inicialmente desaprovaram aqueles riscos. "Pra que marcar sua pele, menina?" Pra cada indagação eu explicava, com carinho, que somos todos e todas feito de marcas.
Uns dois carnavais depois uma tia sentenciou que "mulher bonita tem que ter cicatriz de escape de moto".
Uma semana passando mal, até que comecei a vomitar sem conseguir parar.
Hospital. Apendicite.
Quando liguei pra casa, do outro lado do oceano, e informei que ia pro bisturi meu pai foi logo perguntando qual era o método da cirurgia, veio logo com uma video laparoscopia que eu nem conseguia pronunciar direito. Ele estava preocupado com o tamanho da cicatriz.
![]() |
| Sobre o que fica. "Tratarei como sábio esta ferida, pra lembrar a loucura dos amores". Poeta Zeto. |
Sempre quis ter uma cicatriz. "Deixa de falar besteira, menina!" É que é uma histórica e você pode até contar pras amizades na mesa de bar - mas o melhor mesmo é que ela é sua, é sua história.
Cicatriz uma marca menosprezada, igual como a gente torce o nariz pro seio flácido que amamentou e esquece que esse seio deu momentos lindos pra história dessa mãe. E aí aparece todo tipo de receita pra evitar cicatriz: não corra, não suba aí, não se apegue, não crie expectativa. Como se desse pra viver sem desejo e sem curiosidade! Um tecido fibroso paga e ainda sobra gorjeta.
No fim das contas, fico encucada como a preocupação é com o fim e não com o processo. É mais que a marca de uma lesão, um impacto estético da perda da integridade da pele. Pro beleléu com essa integridade toda. É uma lesão que foi cuidada, o cuidado sim merece nossa atenção e mais importante que ser inteiro é ser cheio.
- Só as feridas limpas cicatrizam.

Gostei do texto!! =)
ResponderExcluirPara alguns garous cicatrizes são sinônimos de honra.
ResponderExcluirBrincadeiras a parte, também adorei o texto.